Aos 18 anos, observador de aves acumula 1,2 mil espcies registradas

O que voc fazia quando tinha 11 anos? Talvez coisas como brincar de carrinho ou de boneca, caa ao tesouro, pega-pega com os amigos, jogar bola na rua.

O jovem naturalista Estevo Santos, hoje com 18 anos, escolheu percorrer as matas da Serra dos Pireneus (GO) para observar aves e estudar sobre a formao e evoluo do Cerrado.

Mas para contar um pouco da histria dele, preciso voltar ainda mais no tempo. O garoto descobriu a ornitologia aos 7 anos de idade, poca em que j lia livros sobre os assunto e pesquisava sobre as aves que observava no meio da cidade.

Ele conta que no recebeu o incentivo de ningum da famlia ou de amigos para adentrar nesse universo. Seu interesse e amor pela natureza parece ter vindo de “antes do bero”.

Estevo Santos

naturalista

Grande parte do trabalho de campo realizado pelo jovem observador aconteceu entre 2017 e 2023

Apesar da pouca idade, Estevo j tem cinco artigos cientficos publicados sobre suas descobertas. Com apenas 18 anos, isso parece improvvel. O primeiro dos cinco foi aos 13 anos, divulgado na Revista Brasileira de Ornitologia.

Na poca, ele era coautor de um trabalho que analisou as rotas de migrao do falco peregrino pelas bacias hidrogrficas do Araguaia e Tocantins, juntamente com outros pesquisadores.

Ao lado de ornitlogos, botnicos e gegrafos, Estevo percorreu todos os municpios do Distrito Federal, especialmente Braslia, Sobradinho e Planaltina, e ainda todas as mesorregies de Gois – sul, sudeste, leste, sudoeste, norte, nordeste e noroeste goiano. A grande parte do trabalho de campo aconteceu entre 2017 e 2023.

Estevo Santos

borboleta

Estevo busca compreender a natureza no s pelas aves, mas por todos os grupos de seres vivos e suas interaes com a paisagem

“ um trabalho longo, que exige pacincia, esforo e curiosidade. Isso porque a regio a ser mapeada muito extensa e vrias reas precisaram ser revisitadas. Cada parte de Gois e Distrito Federal que visitamos tem caractersticas muito diferentes, apesar de todas estarem dentro do Cerrado, explica Estevo, estudante da Universidade de Braslia (UnB).

O garoto j acumula 1,2 mil espcies de aves registradas ao longo de sua trajetria. Somente em Gois e Distrito Federal, o estudo contempla mais de 650 espcies.

Interao entre ecossistemas

O que norteia o trabalho de Estevo mapear aves de Mata Atlntica e Amaznia que adentram os limites do Cerrado, um ecossistema savnico e mais aberto, no qual as florestas so menores e mais secas.

Incansvel, ele ressalta que os registros feitos de aves que so originrias de outros biomas dentro do Cerrado, como o amaznico sabi-bicolor e o benedito-de-testa-amarela, endmico da Mata Atlntica, mostram que essa poro central de Gois era muito mais rica e complexa no passado.

Essas catalogaes reforam, tambm, a necessidade de explorar matas que restaram no Cerrado, pois, mesmo reas desmatadas, podem abrigar espcies desaparecidas.

Para encontrar essas espcies em Gois, o naturalista visitou – alm da Serra dos Pireneus – a Chapada dos Veadeiros, o Parque Estadual de Terra Ronca e o Parque Nacional das Emas.

Estevo Santos

naturalista

Durante a pandemia, entre 2020 e 2021, Estevo morou em um stio no alto da Serra dos Pireneus, uma das reas de altitudes mais elevadas do estado

Durante a pandemia, entre 2020 e 2021, ele morou em um stio no alto da Serra dos Pireneus, uma das reas de altitudes mais elevadas do estado, onde o clima localmente mais frio. No topo da serra, o afloramento de rochas antigas favorece a presena de um tipo de Cerrado muito mais restrito, o rupestre, repleto de espcies endmicas.

 ” um dos pontos mais altos de um grande divisor continental de guas que corta o Brasil ao meio, e divide as bacias hidrogrficas dos rios Tocantins e Paran. De um lado da Serra, nasce o Rio das Almas, que afluente do Tocantins, e banha a Amaznia no norte do Brasil. Do outro, nasce o Rio Corumb, afluente do Paran, que banha a Mata Atlntica do sul e sudeste do pas. Graas a essas particularidades hidrogrficas, ao clima mais frio e a posio mais alta no relevo, vrias espcies de aves atlnticas aparecem na Serra dos Pireneus, e foi nessa localidade que eu comecei os meus estudos sobre elas, ainda em 2017″ — Estevo Santos, ornitlogo e naturalista.

Redescoberta da sara-de-cabea-azul na Chapada dos Veadeiros

Acompanhado do bilogo Marcelo Kuhlmann, Estevo conseguiu registrar uma subespcie rara de sara-de-cabea-azul, a Stilpnia cyanicollis albotibialis, em dezembro de 2020 em uma fazenda.

 

Ao todo, so sete subespcies, mas essa em especfico havia sido observada pela primeira e, at ento nica vez na Chapada, em 1929. A ave foi encontrada nas primeiras horas do segundo dia de expedio.

“O indivduo estava se alimentando de frutas ao lado de outras saras. Ns ficamos eufricos e surpresos porque esse bicho estava desaparecido h quase 100 anos. A Silpinia cyanicollis uma espcie amaznica, mas as populaes da Chapada pertencem a uma subespcie diferente da amaznica”, conta.

Sobre esse desaparecimento, o naturalista acredita que a espcie prefira matas maiores e mais frondosas, com mais folhas e ramos, e que estas muitas vezes ficam em locais de difcil acesso. Alm disso, ele afirma que a regio da Chapada permaneceu pouco explorada durante muito tempo, tendo aumentado o nmero de observadores nos ltimos anos.

Primeiro registro do sabi-bicolor do estado de Gois

 

Estevo Santos

sabia bicolor

No Brasil, o sabi-bicolor est presente em grande parte da Amaznia

Tambm comum na regio amaznica, o sabi-bicolor (Turdus hauxwelli) tinha raros registros no Cerrado, restritos principalmente ao oeste de Mato Grosso. A ave foi encontrada numa mata relativamente pequena e desmatada em janeiro de 2023, no municpio de Taquaral de Gois.

“Estava com dois parceiros de campo observadores, o Andr De Luca e o Jayrson Arajo, que viu a ave primeiro e nos chamou. Quando eu e Andr chegamos perto, conseguimos confirmar que se tratava de um sabi-bicolor atravs do canto”, lembra Estevo.

O feito contribuiu com a expanso da espcie para alm do domnio amaznico, ampliando a distribuio do animal em 650 km.

 

Estevo Santos

ave

Alm de fotogravar as aves, Estevo gosta de desenh-las e anotar suas caractersticas

“O sabi-bicolor e a sara-de-cabea-azul expandem a distribuio atravs das matas de galeria e das florestas estacionais semideciduais, sobretudo as matas relacionadas s bacias dos rios Tocantins e Araguaia, que tm suas nascentes no planalto de Gois. Essas florestas representam extenses interioranas das florestas Atlntica e Amaznica atravs do Cerrado, e a composio da sua fauna e flora relacionada a essas duas origens”, afirma.

Os dois registros, tanto o da sara-de-cabea-azul quanto o do sabi-bicolor, resultaram em publicaes em razo da raridade para a Chapada dos Veadeiros e estado de Gois como um todo. No entanto, no Mato Grosso, onde tambm h rea de Cerrado, ambas as ocorrncias so comuns.

De acordo com Estevo Santos, isso acontece porque as vegetaes dos dois estados so bem diferentes. Gois est na poro nuclear do Cerrado e no ponto mais elevado do Planalto Central, enquanto Mato Grosso j est no oeste do Cerrado, numa regio de topografia mais baixa e j na rea de transio com a Amaznia.

“Em Gois, a presena de Mata Atlntica mais pronunciada e influente em quase todas as matas, sobretudo porque quase metade do estado est inserida na bacia do Rio Paran, que uma das principais rotas por onde as florestas com caractersticas atlnticas se expandiram pelo Cerrado”.

Registros notveis de migrantes de inverno para Gois e Distrito Federal

Estevo Santos

tesoura

Espcie exclusiva da Mata Atlntica, tesourinha-da-mata ocorre em florestas preservadas e difcil de ser encontrada

Entre os registros, o jovem Estevo destaca dois deles: a tesourinha-da-mata (Phibalura flavirostris) em julho de 2021, no Distrito Federal, e a maria-preta-de-bico-azulado (Knipolegus cyanirostris), no ms seguinte, em Gois.

Estevo procurava pela tesourinha na natureza desde 2017. Antes, ele s havia visto exemplares dessa ave em museus pelo Brasil afora e no exterior. Os indivduos haviam sido coletados no Cerrado por naturalistas no sculo 20.

Estevo Santos

ave maria preta

Maria-preta-de-bico-azulado foi registrada na borda de uma mata em Nerpolis (GO)

A maria-preta-do-bico-azul tambm era almejada pelo ornitlogo desde o mesmo ano. “Durante uma sada despretensiosa com o amigo Bruno Renn, localizamos a ave ‘por acaso’ na borda de uma mata. Cogitamos que ela havia chegado aps as frentes frias muito intensas que aconteceram em julho e agosto”, lembra ao destacar que esse foi o 2º registro da maria-preta-de-bico-azul para o estado.

Para ele, o ponto mais importante do trabalho no foi apenas divulgar os novos registros para o Cerrado, mas abordar um grupo de aves migratrias ainda pouco conhecido e compreendido, que so os “migrantes austrais”, aves que se deslocam do sul do Hemisfrio Sul para o interior do continente no inverno.

Alm das aves, Estevo se interessa pela coleta de plantas e fotografia de outros animais, como anfbios e rpteis, cujos padres de distribuio geogrfica so muito parecidos com os das aves como, por exemplo, o sapinho-do-folhio (Rhinella sebbeni), relacionado a um grupo de espcies da Amaznia, e o papa-vento (Enyalius capetinga), mais relacionado a um grupo da Mata Atlntica.

Prximos passos

Agora, o naturalista se concentra em publicar os resultados na literatura. “As informaes ‘mais urgentes’ eu priorizei escrever nos artigos, mas ainda h muita coisa indita que compilei no meu livro que ser publicado entre 2024 e 2025”, diz. Alm disso, ele est trabalhando na produo de textos mais lricos e descritivos, reas que o fascinam.

* Com informao g1